Quarta-feira, Janeiro 06, 2010

Concurso de Fotografia com-palavras.com

Meninos e Meninas,

E que tal fazemos um concurso de Fotografia, com-palavras.com 2010?
Em que cada um entra com 2-3 fotos.

Depois podíamos também repensar numa tertúlia em 2010? Faltam é locais...

Terça-feira, Dezembro 29, 2009

BIP

TIC, TAC... Bip!

Do céu cinzento enfadonho
Escorrem lágrimas de um temporal.
Alegria disfarçada nos desejos,
Tantas vozes com ensejos...
Dizem ser algo especial!
Como se um minuto fosse um sonho...

Como um clique do relógio mágico
Ou a ilusão de um bip tecnológico.
Ironia crónica de um rito pagão,
Delírio banal de uma ocasião,
Desvario incontido, antropológico!
Segundo maravilhoso ou trágico.

Caramba, raios, maldição!
É apenas um segundo,
Não podeis mudar o mundo!

Só o infinito é fecundo....
E destrói a tradição
Em bip's de devastação...

BIP!

Terça-feira, Novembro 10, 2009

20 anos

Há 20 anos atrás, na cidade de Berlim
Ainda havia gente a brindar, depois de uma noite de festim

Há 20 anos atrás, na Berlim Ocidental
Abraçava-se um pai a ocidente, com seu filho Oriental.

Há 20 anos atrás, na unida Alemanha
Havia um espírito único, de uma felicidade tamanha

Em Novembro de 1989 em Portugal,
Havia uma criança, a outras igual.

Para uma enclopedia geográfica recente,
Olhava com uma expressão entediada.
Porque a realidade agora diferente,
Em poucas horas a tornava desactualizada.


Mudança...


3 sílabas... a história de uma vida!
Aquela que diz o poeta, ser feita de mudança.
E essa mudança, na qual o tempo dança,
Traz a nova realidade surgida.

O petiz cresceu envolto na mudança:
Essa mudança na juventude foi esperança...
Essa esperança em tudo foi fruto que se alcança,
E que transforma a tempestade na mais doce bonança.

Sábado, Novembro 07, 2009

Não me olhes assim II

Não me olhes assim

És suave como uma manhã de Outono…

Quando os raios de sol, filtrados pelo nevoeiro matinal, entram pela janela do quarto a acariciarem o meu despertar…

Vou à janela ver o mundo!

Umas quantas folhas amarelecidas pelo calor do verão voam na brisa para se acumularem num acolchoado tapete ruivo…

Sinto que te aproximas, viro-me para contemplar o teu vestido de pele branca… Hoje trazes esse longo cabelo preto solto até à cintura… Tens na mão, duas metades de romã… De uma delas, solta-se uma gota de sumo que tomba no chão branco, como se de uma gota de sangue se tratasse!

Os teus enormes olhos negros presos em mim…

- Porque me olhas assim?

- Assim como?

- Como se esperasses algo de mim!

Afasto-me, em direcção à janela… A respiração forte e irregular, a minha mão que treme como se fosse exterior a mim… Tu abraças-me pelas minhas costas, os teus braços entram por baixo dos meus, provocando um pouco de cócegas, para se alojarem no meu peito exaltado, sei que te apercebes, mas não o comentas, suspiras em silêncio e beijas o meu omoplata… Umas quantas lágrimas humedecem-me o olhar…

A nossa sombra, provavelmente, projectada na parede branca do quarto… E o nevoeiro matinal que tudo encobre… E o sumo da romã que continua a cair formando agora uma pequena mancha vermelha, no chão branco do nosso quarto.

Os nossos corpos nus fundidos naquela sombra, que, provavelmente, se reflecte na parede do quarto… Afasto-me mais um pouco, num gesto de vergonha, que também poderia ser considerado desprezo… Tu não me segues, mas as nossas mãos ficam suspensas, como uma ponte, entre os nossos dois seres… A minha mão esquerda continua a tremer demasiado… Se, ao mesmo, tu pudesses compreender…

Giro-me em direcção a ti… Verifico quão bela és! E, de novo, esse olhar…

- Não me olhes assim!

- Porquê?

- Porque me enlouqueces!

Uma metade de romã solta-se da tua mão e flutua, estranhamente, em câmara lenta até ao chão… Ao mesmo tempo, na avenida, uma bolota solta-se do carvalho mais próximo da minha porta… Saltitam umas três vezes antes de encontrarem o sítio perfeito para repousarem!

Algumas gotas de sumo voaram até às tuas pernas brancas! Ajoelho-me diante de ti e bebo o teu doce sangue! A mancha vermelha do chão continua a alastrar-se como se me fosse aprisionar… Discirno, claramente, como ganha vida e se alastra na minha direcção como se de uma enorme amiba vermelha se tratasse... Começam a formar-se uns braços em volta da minha perna… Procuro refugio nos teus olhos, mas, também eles, parecem devorar-me vivo…

- Não me olhes assim!

- Porquê?

- Porque me aleijas!

Moves-te em direcção à cama, começas por desfaze-la como se desmontasses o cenário do nosso pequeno Teatro dos Sonhos… Enquanto trocas os lençóis por uns lavados recentemente, o cheiro a lavanda inunda a pequena habitação em que nos encontramos… Com o meu braço na tua cintura obrigo-te a que te gires na minha direcção e abraço-te… o teu braço direito, tremulo, e que sustém, ainda, a romã encontra um repouso acutilante no meu peito, como se me apunhalasse o coração… O sangue, excessivamente, vermelho da romã escorre pelo meu tronco antes de cair no chão! Sinto-me fraco, e refugiando-me no teu abraço caímos os dois nos lençóis brancos que acabas de pôr na cama… As nossas peles brancas, camufladas, entre os lençóis são como pele de fantasmas, como se já não existíssemos… Acaricio-te a cara com ambas as mãos e aproximo os nossos lábios, talvez eles mais vermelhos que o sangue que tinge os lençóis, para te beijar… Neste movimento lento os meus olhos encontram os teus enormes botões negros neste universo branco e vermelho…

- Não me olhes assim!

- Porquê?

- Porque me dás medo!

Tomo consciência que a nossa pele desapareceu já, fundida por entre os lençóis… De nós sobra apenas a romã, agora esmagada entre os nossos corpos, os nossos lábios quentes e os teus olhos negros… Somos fantasmas do casal que viveu aqui um dia… Somos a recordação! Não voltaremos a ter vinte anos… Nunca mais voltaremos a ter vinte anos… Tento em vão olhar pela janela e aperceber-me do Outono… Sinto o ar gelado do quarto… Sinto o frio dos lençóis… Vejo o nevoeiro matinal a invadir o quarto, com ele veio a Morte para me acariciar as costas, mas ficou, ali a um canto, quando se apercebeu que já não tenho costas… Veio, também, um Anjo acariciar-te o cabelo, mas também ele permaneceu naquele canto, ao ver que já não tens cabelo… Aperto o lençol contra si mesmo, na esperança vã que sejam as nossas mãos que se apertam… Não quero perder-te… Fiquemos aqui para sempre, neste limbo… E que a Morte e o Anjo sejam os nossos guardas… Mas tudo é em vão… Cedo descobriram uma forma de nos levarem… E, eu, eu já sinto frio… Muito frio… Perecemos aqui no palco onde um dia construímos o nosso enorme Teatro de Sonhos… Nunca fomos uma bela história de Amor… Mas diluímo-nos como Amantes, entre os lençóis brancos tingidos pelo vermelho-rubro da romã… Fora da janela do nosso quarto o Outono continua a tingir tudo de ruivo… O nevoeiro permanecerá para sempre, como o ultimo suspiro de Nós… Num ultimo esforço busco o teu olhar fascinante…

- Não me olhes assim!

- Porquê?

- Porque não!

E eu, que esta manhã só queria sair à rua descalço e percorrer lentamente a avenida enquanto o tapete ruivo de folhas secas se destruía debaixo dos meus pés… E tu, na janela, a ver-me, enquanto comias essa romã… Podíamos passar a tarde na praia… Voltar e acender a lareira… Eu sentava-me no chão… E tu no sofá… Abríamos uma garrafa de vinho… Eu lia-te um livro… No final beijava-te e dizia que te amava… Tu sorrias… Uma lágrima, provavelmente, humedeceria o meu olhar…

E eu, que esta manhã só queria que fossemos, descalços e de mãos dadas percorrer o enorme tapete ruivo que cobre a avenida onde está a nossa casa…


Este texto é uma outra forma de contruir um texto anterior:

http://www.pena.com-palavras.com/2008/12/no-me-olhes-assim.html


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Quinta-feira, Novembro 05, 2009

V – Os Transportes

Passam autocarros
Passam táxis
Passam pessoas
Espera-se e espera-se
Aí vem o próximo
Passam pessoas
Passam paisagens
Passam transportes
De quem asseia por casa

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Terça-feira, Novembro 03, 2009

As ruas do meu bairro

Ontem corria as ruas do meu bairro...

E aquela luz mortiça dos candeeiros no anoitecer chuvoso de Dezembro, era conforto na minha alma. No café havia gente (umas vezes mais outras menos...) e o travo amargo da cafeína, de qualidade por vezes duvidosa, era contudo bálsamo para os pensamentos. O tempo perdia-se diluído por um ou outro digestivo, mas as conversas prolongavam-se amenas até a noite já ir alta... Havia magia naquelas ruas, havia ecos familiares e sons difusos, sons esses que não voltam mais...

"Entre dois dedos de conversa amena,
Na força de um abraço apertado,
A noite seguia, agitada ou serena,
Até o corpo se deitar cansado..."

Hoje já vagueio pelas ruas do meu bairro...

E à luz de um sol mortiço, procuro remoer um ou dois pensamentos. No moderno snack bar pouca gente conheço e embora o aroma do café seja bem mais agradável, não me desperta a alegria dos bons pensamentos. A tarde arrasta-se em alguns diálogos de circunstância... Sem grande magia, em sons que já não conheço e que não sei se irão ficar...

"Acaricio os dedos, maquinalmente,
Aconchegando o corpo na rua fria.
A tarde segue decadente,
Indiferente e tão vazia...

Amanhã andarei perdido pelas ruas... do bairro!

De noite ou de dia nem saberei sequer o que pensar! Se houver café tudo bem, senão serve qualquer coisinha! Se não falar tanto melhor... E certamente que dispensarei qualquer som que me perturbe os pensamentos!

"... é melhor aquecer os dedos em casa
E observar a chuva a cair lá fora...
Pois o som que de lá extravasa,
Não é a melodia que ouvia outrora...

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Terça-feira, Outubro 27, 2009

IV - A Noite

Luzes de mil cores
E o tempo que congela
Vadios de rumo certo
Olhares ansiosos e vorazes
Apetites loucos à solta
Um sentimento de desconhecido
A cada esquina conhecida
Nos estranhos companhia
Que nos leva a estranhar
E abandonar a razão que temos
Grupos que crescem mesmo que apenas por horas
Horas que passam sem se verem
Véu negro que clareia
Passagem para o amanhã
Renascer da alegria

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A verdade na mentira

Um movimento discreto e furtivo;
Um gesto protector e esquivo.

Um forte pesar na cabeça,
Esperando que a memória se esqueça...

Uma fuga, um escape doloroso.
Um hábito, no dia vagaroso.

Se os gestos são fugas de nós,
Se existe um amargo sincero na voz,
Se o escape é tão inocente
E a brisa corre amena e feliz,
Tão doce nas palavras que diz
Quando o mundo roda contente.

Então a certeza ninguém me tira:
De que existe verdade na mentira!

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Quinta-feira, Outubro 22, 2009

III - Fim de Tarde

Sentir a brisa do fim de tarde
Os raios mortiços
De um sol que está de partida
O rebuliço das gentes
Que se vai com o calor
E o calor das gentes nos bares,
Que aumenta com a escuridão.

O ar sorridente
O ar cansado
O ar pesado
O ar carente
O ar de toda essa gente
O ar que tenho em mim.

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O Basilisco

Erguendo-se da água escura,
O Basilisco abandona o seu abrigo,
Com os seus olhos que inspiram loucura,
Tudo o que respira está em perigo.


Abrindo as asas sobe no ar,
Espalhando pelos campos o terror,
Voa sob os raios de luar,
Enchendo quem o contempla de torpor.


Misto de morcego e serpente,
Corpo de galo e de dragão,
Aterroriza fraca e forte gente,
Matando tudo o que se atravessa na visão.


Com o seu olhar venenoso,
Transforma em cinzas quem o vislumbra…
Com o seu hálito sulfuroso,
Sufoca o incauto na penumbra…


Este monstro, poucos o sabem deter…
Não com o odor de doninha nem canto de galo,
Pois apenas o seu reflexo o consegue abater,
Obrigando as trevas a recolher o seu vassalo.


E assim todas as longas noites brumosas,
O Basilisco atravessa o firmamento,
Aterrorizando as pessoas receosas,
Para por fim regressar ao seu acolhimento.


[Mergulhando na água escura,
O Basilisco regressa ao seu abrigo,
A uns, os seus olhos lançaram na loucura,
Aos outros, o medo do regresso do perigo.]

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Terça-feira, Outubro 13, 2009

II - Os Cafés

Há gente estranha
Que ocasionalmente olha para mim.
Estranhos não por serem esquisitos
Estranhos por serem diferentes.
Os muros que erguem são altos
E maciços, mas ali, na aragem do final de tarde
Sentimos os ventos da liberdade
E vemos o sol
Por entre as falhas dos tijolos.

É ali,
Com as suas bebidas e comidas
Do que para mim é o final do dia
Para eles o começo da noite
Que os vemos como são
Em amena conversa
De olhar agressivo.

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Nas asas (de um tempo...)

Comando televisivo na mão,
Um sorriso meio perdido,
Um coração meio esquecido,
Um esgar de comoção.

Um ar contempletativo,
Uma tranquilidade inquietante...
Uma recordação distante
Num caminho definitivo.

Uma felicidade diferente,
Uma calma enganadora,
Uma imagem tentadora,
A incerteza pela frente.

É caminhar.
É lutar.
É chorar.
É desesperar...

É ter tudo para ser feliz...
E viver sempre insatisfeito,
Num quadro meio desfeito
De quem ainda é aprendiz...

Mas que nas asas do tempo, impiedoso,
Apenas voa para um fim...


...Glorioso?

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Segunda-feira, Outubro 12, 2009

Sem pensar

Estou a tentar, com tanto esforço, não pensar tanto.
Estou a tentar não me esforçar,
mas se tento tanto não pensar
será que vale a pena não me preocupar?

Estou a mentir a mim próprio.
Eu digo que não vale a pena pensar,
mas será que não vale mais a pena dar as costas ao vento
e caminhar daqui para fora?

Tu olhas para mim e tento não pensar.

Penso nas palavras e elas tropeçam para fora.
Penso no andar e fico congelado no lugar.
Penso em não me preocupar o que achas de mim
e fico ridículo tentando não me esforçar.

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Quarta-feira, Outubro 07, 2009

Verão

O ar nocturno era suave e quente, com uma brisa ligeira girando em torno dos nossos pés, tornando o nosso passo uma caminhada pelas nuvens. O rio ficava à nossa esquerda enquanto caminhávamos pela margem, um copo de bebida tentava gelar os nossos dedos mas sabia tão bem na nossa garganta. Ainda me lembro de ti a falares de politica e do mundo, alheia a tudo, esbraçejando com emoção enquanto eu sorria e desviava-te das pessoas antes que as empurrasses à tua frente. Foi o nosso Verão, alheios ao mundo, num romance tão belo.

Ainda te lembras dos jardins que visitámos?
Ainda te lembras das fotografias que tirámos?
Ainda te lembras das carícias que trocámos?

O sol nas nossas costas ardia mas era tão fácil ignorá-lo enquanto subíamos a serra. A paisagem até perder de vista fazia-nos perder o fôlego. Teus olhos brivalham enquanto olhavas para longe e os meus brilhavam olhando para ti. Ainda me lembro de ti a tirares fotos a tudo enquanto eu me ria e roubava fotos de ti. Foi o nosso Verão, presos um ao outro, num romance tão lindo.

Ainda te lembras dos edifícios que vimos?
Ainda te lembras dos sonhos que descobrimos?
Ainda te lembras dos prazeres que sentimos?

E agora aqui estamos, alegres desconhecidos um do outro. Tu passeando com a tua família, de braço dado com o teu marido, por entre o ar nocturno suave e quente. O quanto parece aborrecida a nossa existência agora...

Ainda te lembras do quanto quis ficar contigo?
Ainda te lembras do amor que senti perdido?
Ainda te lembras de mim????

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Segunda-feira, Setembro 14, 2009

I - Os Passeios

Percorri como um vulto as ruas da cidade
Calcorreando os negros caminhos de pedra
E abrigando-me do calor do sol
Em sombras de centenários prédios.
Cada passo era um passo já dado
Por outros, noutros tempos,
Mas eram mesmo assim passos originais…

Percorri com um vulto as ruas de que falo.
Sentia-o sempre ali ao meu lado
Calado, a tentar não me dar importância,
Mas a conduzir-me
Por ruas e vielas de outrora
Por entre gentes e culturas de agora.

O sol alto aquece-me os passos,
Só as palavras são frias,
Porque frio é o ar que vem do mar,
Que me desperta os sentidos
Que me faz olhar em redor
Que me faz esquecer o calor

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Sábado, Agosto 01, 2009

A Torre de Marfim

Contemplei, admirado, as suas paredes esbranquiçadas. Ao longe pareciam ser de um branco alvo e imaculado, mas à medida que o metro me levava mais perto, percebi que aqui e ali estava manchada com traços de cinza e azul. Já mais perto, mesmo junto à porta, reparei que era de um cinza com traços de preto, sinais evidentes da sua idade.

Chegava com sonhos e ilusões de grandeza. Era ali que se reuniam os maiores génios da sua actualidade. No cimo daquele monte, o ambiente era propício ao desenvolvimento intelectual. À medida que me perdia, apercebia-me da vedação, que deixava de fora daquele ambiente privilegiado a ralé e a escumalha intelectual que passeiam pelas nossas ruas. Uma vedação, feita de rede aqui, muros de cimento ali e com portões em tons de verde, com vinhas nas vedações de arame circundantes, colocados em todo o perímetro.

Ali estava uma ilha no mar de ignorância. Era o local, friso-o novamente, onde as mais brilhantes mentes do nosso tempo se reuniam e eu queria absorver todo o seu saber. Subi os três degraus para a base da torre e entrei, passando o balcão de segurança onde ninguém estava e contemplando o mar de mesas onde uma multidão trabalhava.

O grande átrio de mesas era cortado mesmo no centro por uma grande escadaria. No momento em que pisei o primeiro degrau uma voz de trovão ecoou por todo o átrio. “E há que ter em linha de conta os créditos! Não podemos esquecer os créditos. Os créditos são fundamentais!” procurei em vão a fonte de tal afirmação e descobri ser um indivíduo de baixa estatura, com uma barriga de cerveja bem proeminente, de cabelos grisalhos e de aspecto oleoso apanhados num rabo-de-cavalo que lhe chegava a meio das costas. Rodeavam-no algumas das mulheres mais horrendas que já vi na minha vida, apensa comparáveis a descrições de criaturas das trevas em livros de fantasia. Desciam as escadas e ao passarem por mim agiram como se eu não existisse, empurrando-me contra o corrimão azul, que abanava como uma seara ao vento, à medida que desciam as escadas. “O problema é que os alunos não estão para se dar ao trabalho, é melhor não exigirmos muito. Há que falar com aqueles que são demasiado exigentes, porque se a proposta de avaliar em função do mérito avançar, temos de estabelecer quotas de aprovação!” continuava a dissertar indivíduo a quem a multidão de bajuladoras chamava de Prof. Posta.

Confesso que a impressão que aquele grupo causou em mim foi de estranheza e estupefacção. Estava estupefacto com o que ouvia, e causava-me estranheza a forma messiânica como o referido Prof. Posta se passeava. Por momentos tive a sensação estranha que ele se sentia o dono do edifício, a forma como balanceava não os braços mas o ombros ao andar, os braços arqueados como um culturista, e que aquela multidão que o seguia mais não era do que a sua merecida multidão de servidoras.

Num dos cantos do edifício havia uma escada em espiral que facultava o acesso a todos os pisos. Decidi-me a subi-la. Havia-me candidatado a um bolsa de investigação com um tal de Prof. Saudita, que tinha o seu laboratório no sexto piso deste edifício. Estava bastante entusiasmado com a proposta e o convite pronto que havia recebido para vir à entrevista deixava-me com grandes esperanças.

Ao passar pelo segundo piso uma outra voz fez-me parar de subir escadas. No corredor imediatamente em frente uma senhora, de aspecto um tanto ou quanto tresloucado, falava com um grupo de alunos que tentava, até eu me apercebia à distância, desesperadamente sair dali. “Então meus filhinhos,” dizia ela com uma voz meio rouca “não querem uma bolsa? São cem euros por seis meses de trabalho intenso no meu laboratório a tentar descobrir uma maneira de furar uma patente para um anti-viral famoso” continuava e ria-se e tentava outra abordagem “E já viram o triângulo das minhas bermudas?” A imagem tinha tanto de horripilante que só mencioná-la ainda me dá calafrios. Face ao tenebroso daquela personagem, que vim a saber posteriormente dava pelo nome de Prof.ª Quinha, decidi subir as escadas.

“Olhe lá, seu paneleirote, importa-se de tirar a minha coluna do seu rabo?” gritava uma estridente voz ao fundo do corredor, mas eu ouvia-a como se estivesse ali logo ao meu lado. “Veja lá como fala comigo! Olhe que eu acuso-a de discriminação sexual!” dizia um fulano de voz pouco grave mas rouca, de rabo empinado, calças verde alface, com laivos de fluorescente, uma camisa de um rosa intenso e que ao correr corredor acima balouçava mais o rabo que uma modelo na semana da moda de Milão. O Prof. Rabe era famoso por não necessitar de orçamentos para equipar o seu laboratório e parecia estar a meio de uma ida às compras.

Continuei a subir e no quarto piso sou surpreendido por um fulano com uma larga calva, com uma coroa de cabelos brancos e encaracolados, com uns óculos fininhos e de olhos imensamente abertos, para lá do que pensei possível a um ser que não seja arraçado de sapo. O Prof. Ascensio Ilevattori recolhia assinaturas para aquilo que considerava ser um atentado à excelência académica: o mau funcionamento dos elevadores no edifício. Falava e dissertava como um seu amigo inglês havia, numa recente visita, ficado muito cansado ao subir os três lanços de escadas até ao seu laboratório.

No piso seguinte o cansaço começou a apoderar-se de mim, certamente por fazer tantas paragens, pelo que decidi não parar e seguir directamente para o sexto piso. Tive no entanto tempo para ver um poster a anunciar a abertura do novo curso em Bio-Engenharia Molecular em Nanoquímica Verde Sustentável. O sexto piso parecia-me menos estranho que os anteriores pois não se via gente nos corredores, apenas alguns posters referentes a trabalhos famosos do departamento, como por exemplo “A Handersenase e a Fointanase: um conto de enzimas para toda a família” e “Estudo do grupo heme em anfíbios: o caso do cachalote (Cetacius patranhus)”, estudos que de resto são marcos na ciência em Portugal.

Ao fundo do corredor ficava o gabinete do Prof. Saudita. A entrevista correu muito bem. O Prof. propôs-me inclusivamente pensar em fazer o doutoramento com ele. Aparentemente o facto de ter o currículo científico de uma amêijoa e ter acabado o curso com uma média de 12 não interferiam porque como ele disse “isto fala-se com o júri e a coisa passa sempre”.

Quando passei novamente o portão, havia uma questão que ainda levava comigo e que me fez repensar a função daqueles muros. Ao falarmos de todo o projecto perguntei, um tanto ou quanto inocentemente, qual a aplicação prática de tudo o que faríamos. O “não se preocupe que isso logo se vê” que recebi como resposta deixou-me um pouco abananado e perguntei de seguida se havia alguma empresa a colaborar com o departamento. A resposta de “uma ou duas mas isso é só em coisas muito específicas, aqui não temos disso” é que me afastou. Percebi então para que servem muros numa instituição de excelência e a resposta que encontro é que não é para deixar a mediocridade do lado de fora…

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Segunda-feira, Julho 13, 2009

Pessoas

Embora me perca na noite é de dia que conheço as ruas de cada cidade... Turista acidental do destino. Ontem como hoje, mais ou menos vezes, parto sempre com destino mas sempre de surpresa...
O que busco é diferente! Não é a igreja deserta, ou o monumento mais badalado do sítio... Não! Eu busco pessoas...
Não me interpretem mal, não sou um caçador, busco pessoas para uma breve conversa, ás vezes um simples sim ou não. O psicólogo atende o doente que o procura. Não sou psicólogo portanto procuro eu o doente... Ou melhor não existe nenhum doente neste história! Apenas me interessa o ser humano seja ele quem for!
Não visito feiras nem largos apinhados... Longe de ser o político à espera de voto ou o religioso que tenta converter o mais solitário cidadão. Busco cafés, quanto mais simples melhor! Se tiverem jornais sobre as mesas melhor ainda! Por vezes passam-se horas solitárias até surgir alguém... Isto se não for o próprio proprietário da casa a puxar o primeiro assunto. Pelo sim pelo não vale a pena ter um jornal à mão (ou dois). A hora do dia determina a escolha: O café, ou a imperial... Se a hora for de imperial, o pedido da segunda aumenta a possibilidade do primeiro diálogo.
Finalmente surge alguém e começam as conversas, a propósito disto ou daquilo, do tempo, da actualidade, da própria imperial! E quase sempre é isso que procuro... A conversa banal!

Questionar-se-ão: E para que serve uma conversa que não passa do banal! Explico-vos com certeza, porém não sei se entenderão! Não sou um solitário. Tenho muitos e bons amigos. Amigos a quem conto os mais variados e até mais pessoais problemas. Todos menos aqueles que são mesmo muito pessoais...

E grita o leitor! Ah então temos aqui um seguidor da máxima do "contador de problemas a um estranho"...

ERRADO!

... e contudo certo! Faço-o mas não o faço... Não conto nada a nenhum estranho. Falo sob metáforas tão discretas que tudo fica imperceptível... Eternamente codificado! Em troca as conversas banais... A maravilha que é o ser humano: Em rostos, pessoas vulgares, pessoas que se cruzam connosco no dia a dia... Pessoas que tal como eu falam metafóricamente. Talvez não o façam, contudo, de forma intencional... Mas no fundo ao pousar das moedas sobre a mesa, no último e derradeiro boa tarde, somos capazes de sorrir... Ter um microsegundo de felicidade...

No fundo, sermos intimamente NÓS.

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Domingo, Julho 05, 2009

CoBrA

B-A-Bá
As escamas como tijolos
Vermelhas de barro
Com vestígios do sal do Báltico
Com a sujidade do pântano
E os tons inspiradores do Norte de África

Dentes de criatividade aguçados
Preparados para cuspir veneno
Apertar a vítima nas suas ruas
Para sempre presa armadilhada
Agarrada a esse deambular

Janelas parcamente iluminadas
Uma urbe que vive para sempre à noite
Capital como pacata vila
O correio que se perde na viagem

Uma criança que agora começou a ver
Com rabiscos e palavras sem nexo
Mergulhada em águas de inocência

Quero voltar e perder-me nas vossas curvas
Ver-vos novamente com novos olhos

Oh! Esplendor da infância!

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Sexta-feira, Junho 26, 2009

O Caminho para Casa

O rebuliço que vai na minha cabeça
Contrasta com a calma em redor
Sentado, jornal dobrado na mesa
Copo de cerveja, apático, na mão
Os olhos a sondar o ambiente
E a mente, fora do corpo a vaguear.

Há um espaço oco cá dentro.
Havia antes de deixar o meu corpo
E tão cedo não se enche.
Por vezes, o ar fresco da tarde,
Traz um sorriso
Mas o dia-a-dia apressado
Traz as rugas
E leva-me para longe do Paraíso.

Não digo que seja infeliz,
Não digo que seja feliz,
Podia dizer que nada digo
Mas quando passo os dias
Há muito que me digo e não digo.

Não sou desprovido de conteúdo
Mas sinto-me vazio
Falta-me realização, sentir que escolho
O caminho que tomo para casa.

Segue em frente, vira à direita,
Segunda à esquerda, logo à frente.
Segue em frente, vira à direita,
Segunda à esquerda, logo à frente.
Segue em frente, vira à direita,
Segunda à esquerda, logo à frente.

E no dia em que entro pela porta das traseiras,
Por andei, estavam preocupados
Sem espaço para respirar, para me atrasar,
Para mudar, para ser, para alterar,
Para começar a andar e me perder!

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Domingo, Junho 21, 2009

Senti-te à espera

Senti-te rasgares-me a alma,
Quando de mim só pedias espaço.
Senti-te a fugires,
Como se fosse um vil criminoso.
Senti-te a fugir de ti,
Porque as forças para me enfrentares te fugiam.

Esperei longamente o põr-do-sol,
Para nas sombras me esconder
E por entre gemidos
Poder chorar a dor.

Esperei que o sol não se risse mais;
Pelo suave manto da noite,
Como veludo negro e suave onde
Me preparo para o pior que há-de vir.

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